quarta-feira, novembro 02, 2005

Pessoa Eterno

Sonhei, confuso, e o sono foi disperso,
Mas, quando dispertei da confusão,
Vi que esta vida aqui e este universo
Não são mais claros do que os sonhos são

Obscura luz paira onde estou converso
A esta realidade da ilusão
Se fecho os olhos, sou de novo imerso
Naquelas sombras que há na escuridão.

Escuro, escuro, tudo, em sonho ou vida,
É a mesma mistura de entre-seres
Ou na noite, ou ao dia transferida.

Nada é real, nada em seus vãos moveres
Pertence a uma forma definida,
Rastro visto de coisa só ouvida.


Fernando Pessoa, 28-9-1933

terça-feira, novembro 01, 2005

O que diz Molero

Hoje, acabei de ler pela segunda vez este brilhante livro de Dinis Machado. Toda a história, todo o relatório de Molero, são de levar qualquer um às lágrimas de tanto rir. Melhor que ler este livro, é ver a peça representada por dois génios do humor de palco, os senhores António Feio e José Pedro Gomes (que se por algum infortúnio vierem ler este blog, peço-vos que voltem a passar esta peça!).
Aqui vos deixo com Molero:

"Temos a seita dos calmeirões, os Vai ou Racha", disse Austin, "que já tinham sido os Malhoas e os Roquetes, e que mais tarde seriam os Sertórios. O rapaz via-os, rua acima, rua abaixo, gingando o corpo, fazendo gestos vagamente obscenos para a janela das costureirinhas, combinando petiscadas, provocando quem passava, uma discussão, uns tabefes, umas sandes de presunto, uns copos de vinho tinto, a ronda nocturna pelas casas de prostitutas, as últimas anedotas contadas sob a lua alta e as estrelas, o jogo das moedas à luz esverdeada do candeeiro a gás, fantasmas movendo-se, os últimos de cada dia, na tranquilidade do bairro adormecido.
Molero enumera-os: o Pé de Cabra, que era o chefe e fazia contrabando de tudo, desde relógios suíços a cigarros Camel e Lucky Strike, que tinha como passatempo favorito dar carolos, pancadas com os nós dos dedos na cabeça deste e daquele, principalmente dos mais miúdos, para enrijar a moleirinha, dizia ele; o Gil Penteadinho, que vivia de mulheres, jogva à pancada com a mãe todos os dias por causa disso e andava sempre a atirar uma moeda ao ar como, depreende Molero, George Raft em Scarface; o Bexigas Doidas, que não era bexigoso, como se poderá supor, tinha uma doença de pele e coçava-se muito, às vezes os outros coçavam-lhe as costas porque ele não chegava lá; o Lucas Pireza, que ganhava todos os concursos de tango nas sociedades de recreio, tinha o pai na Miltra e dava cem toques na bola com o pé esquerdo sem a deixar cair; o Metro e Meio, que nem Metro e Meio parecia ter, crescia para os lados, não para cima; o Tonecas Arenas, que usava sombrero, falava de touradas que nunca tinha visto, nunca viu nenhuma, vendia imagens religiosas à porta das igrejas, e també fotografias pornográficas para eventuais turistas depravados, tudo isso à comissão, o fabricante era o mesmo; o Peito Rente que tinha uma expressão muito dele quando achava bem qualquer coisa, dizia isso é rachmaninófico, é rachmaninófico, e golfava sangue quando chegava o Outono.
Uma divisa: passe ao largo e não chateie, que já tinha sido outra, no tempo dos Malhoas, está aqui entre as pernas mas não é para ti, rua acima, rua abaixo, uma paragem nesta esquina, outra naquela, um dia passaram a ser os Sertórios, andavam de camisa preta e cinto reluzente, compraram discos de marchas militares e tocava-nos no gramofone roufenho da Miquelina Fortes, fundaram a Liga dos Amigos da Falange, a sede era na carvoaria do Galego, perguntavam de repente: tens alguma coisa contra a Falange?, o Chinês que vendia gravatas dizia que não com a cabeça, o Marca-Passo, que andava há seis anos à procura de emprego, dizia que a Falange era o máximo, então o Pé de Cabra dizia se não tens nada contra a Falange dá cá qualquer coisa, uma moeda aqui, outra ali, o Chinês às vezes dava uma gravata, depois a gravata aparecia na camisa prea do Gil Penteadinho, nunca se soube como é que o dinheiro ia para a Falange, ou qual Falange, a de cá ou a de lá, ou o que era isso da Falange, mandaram imprimir rifas na tipografia do Celestino, que era para a Falange e ele tinha de ajudar, o Celestino disse que a falange dele era a mulher e os filhos, o Gil Penteadinho disse que aquilo era conversa de bolchevista, depois chegaram a acordo, davamtrês rifas por semana ao Celestino, podia ser que lhe saísse, rifavam uma camisa de seda, um bidé com arabescos dourados, um frasco-gigante de fixador para o cabelo marca Ramon Novarro, uma colecção completa da Gazeta do Fado, uma caldeirada para três no Passa-Fome, depois havia as trocas, a Miquelina, a quem saíra a colecção da Gazeta, trocava com o Raul Pechisbeque, a quem saíra o bidé, a caldeirada para três saiu ao Vôvô Resmungas, que quis comê-la sozinho, apanhou uma congestão e ia morrendo, que o levou ao hospital foi o Bigodes Piaçaba da casa de chapéus-de-chuva, tudo quanto era complicações, dores de barriga e falta urgentíssima de dinheiro ia desaguar na loja do Bigodes Piaçaba, que era contra o Governo, parecia estar sempre zangado e tinha a cara vermelha, passava a vida a levar gente ao hospital na sua carripana a cair aos bocados, as mulheres grávidas, as crianças anémicas, o César Louco quando tinha ataques, a Maria Bicharoco quase cega, o Vôvô Resmungas que comia de mais, vendia chapéus-de-chuva e também berlindes, os berlindes acabava por distribuí-los pelos miúdos, o rapaz chegou a ter uma boa colecção, com o Nuvem, o Contra-Nuvem, o Lua, o Mundo, o Contra-Mundo, o Bandeira Nacional, o Corsário, o Tempestade, o Ondas, o Arco-Íris, o Papa, os mais belos e temidos abafadores de berlindes simples, que eram de uma tonalidade acizentada, feitos em série, baratos e humildes.
Os Sertórios patrulhavam a rua, mais um copo e umas sandes de presunto, faziam a saudação de braço estendido quando encontravam o Pimentel, que era paisana da Legião e sabia muito de coisas corporativas, diziam a gente amanhã vai para a Guerra de Espanha e depois de amanhã já não há guerra, depois morreu o Peito Rente, chegara o seu último Outono, os Sertórios foram perguntar ao Celestino como é que se escrevia ao certo rachmaninófico, o Peito Rente levou na carreta uma coroa de flores que dizia: os Sertórios estão contigo, um abraço rachmaninófico.Mas isso de serem os Sertórios foi mais tarde."

Ouvi Dizer

Ouvi dizer que o nosso amor acabou.
Pois eu não tive a noção do seu fim!
Pelo que eu já tentei,
Eu não vou vê-lo em mim:
Se eu não tive a noção de ver nascer um homem.
E ao que eu vejo,
Tudo foi para ti
Uma estúpida canção que só eu ouvi!
E eu fiquei com tanto para dar!
E agora
Não vais achar nada bem
Que eu pague a conta em raiva!
E pudesse eu pagar de outra forma!
Ouvi dizer que o mundo acaba amanhã,
E eu tinha tantos planos pra depois!
Fui eu quem virou as páginas
Na pressa de chegar até nós;
Sem tirar das palavras seu cruel sentido!
Sobre a razão estar cega:
Resta-me apenas uma razão,
Um dia vais ser tu
E um homem como tu;
Como eu não fui;
Um dia vou-te ouvir dizer:
E pudesse eu pagar de outra forma!
Sei que um dia vais dizer:
E pudesse eu pagar de outra forma!
A cidade está deserta,
E alguém escreveu o teu nome em toda a parte:
Nas casas, nos carros, nas pontes, nas ruas.
Em todo o lado essa palavra
Repetida ao expoente da loucura!
Ora amarga! ora doce!
Para nos lembrar que o amor é uma doença,
Quando nele julgamos ver a nossa cura!
Ornatos Violeta

sábado, outubro 01, 2005

Poema Cansado

Estou cansado.
Cansado de sentir, de ver,
De pensar e parecer.
Cansado do que me rodeia,
E para o qual não sei viver.
Estou cansado de estar cansado,
De pensamentos e ideais
Porque estar cansado, cansa,
E cansado estou eu de mais.
Ao longe, avisto a calma,
Que me sorri como o passado
E para lá vou deambulando,
Deito-me e adormeço…cansado.


José Martins

sábado, setembro 24, 2005

Memória de um Portugal profundo...

Foi com grande nostalgia que encontrei, numa pasta perdida, este post retirado de um blog do qual sou leitor frequente. E, achando que nunca é de mais falar sobre o processo do Apito Dourado, aqui vos deixo essa tão sentida memória.

"Segundo publica hoje o Jornal de Notícias, as escutas telefónicas que estão anexas ao processo "Apito Dourado" e que, na passada terça-feira, seguiram para o Tribunal de Gondomar não envolvem só o Gondomar Sport Clube, mas comprometem também emblemas da SuperLiga. Designadamente, o Boavista e o FC Porto, havendo suspeitas, validadas pela juíza que procedeu aos primeiros interrogatórios judiciais, de que Pinto da Costa e João Loureiro terão tentado alterar a verdade desportiva da competição.
Segundo o JN soube, dois dos jogos em causa, ambos da época passada, têm um denominador comum o árbitro Jacinto Paixão, de Évora, que apitou os jogos FC Porto-Estrela da Amadora e o Boavista-Estrela da Amadora. As escutas telefónicas, a que se juntaram as vigilâncias e as perícias feitas pelos "especialistas"(os ex-árbitros Vítor Pereira, Jorge Coroado e Adelino Antunes) a quem a PJ recorreu, foram consideradas muito comprometedoras pela magistrada, que entendeu serem fortes os indícios de corrupção. Os arguidos tiveram obviamente um entendimento diferente - reconheceram as conversas, porém negaram a prática de crimes - mas só agora, quando o processo for aberto, poderão ter acesso ao teor da totalidade das escutas, para poderem explicar o contexto em que determinadas frases terão sido ditas.

PROSTITUTAS. O jogo do F. C. Porto estava marcado para as 19 horas. Ao meio dia, a PJ gravou uma conversa entre Jacinto Paixão e António Araújo, empresário de futebol próximo do F. C. Porto. O primeiro pedia que nessa noite lhe fosse assegurado o serviço de "prostitutas". Dois minutos depois, constata a juíza, Araújo falou telefonicamente com Pinto da Costa e deu-lhe conta do pedido. "Ligaram-me a pedir fruta para logo à noite. Posso levar a fruta à vontade?". Segundo o registo considerado, Pinto da Costa terá respondido que sim, depois de algumas dificuldades de entendimento sobre o significado da palavra fruta. O que obrigou Araújo a explicar que se tratava de uma fruta que "servia para dormir".
As escutas seguintes voltam a envolver Pinto da Costa e Araújo. E ainda segundo a juíza indicaram que foi o F. C. Porto a pagar o serviço de prostitutas. A conversa volta, no entanto, a não ser clara "Só estou a dar conhecimento ao presidente.... é que eu estou sempre a dispor", disse Araújo.
As autoridades possuem também uma relação completa das chamadas feitas entre o árbitro e o empresário e este e o presidente do FC Porto. Que foram várias e às vezes com apenas minutos de diferença. As prostitutas confirmaram ter estado nessa noite com o árbitro e os respectivos auxiliares, tendo reconhecido António Araújo, Jacinto Paixão e Manuel Quadrado através de fotografias que lhes foram apresentadas em tribunal. Todas já foram ouvidas para "memória futura" e os seus depoimentos têm valor em tribunal.

COMBINADO. O segundo jogo envolvendo Jacinto Paixão foi no estádio do Bessa, também no Porto. As escutas feitas pela PJ dão conta de que João Loureiro, presidente do clube, terá combinado com Júlio Mouco - o vogal da Comissão de Arbitragem da Liga que esta semana pediu a suspensão do mandato - quem eram os auxiliares. Acredita ainda a juíza, com base nas provas reunidas pela PJ, que João Loureiro combinou depois com o observador Pinto Correia que seria aquele que deveria pressionar o árbitro para que o Boavista fosse beneficiado.
O resultado não foi o melhor. O Boavista perdeu esse jogo, o que no entanto não terá feito a juíza deixar de acreditar nos indícios de corrupção. Isto porque, no dia a seguir ao jogo, foi registada uma conversa telefónica envolvendo Valentim Loureiro e Jacinto Paixão, na qual o árbitro terá explicado que "não podia fazer mais". Valentim Loureiro reconheceu-o "Foi um azar. Os gajos cada vez que foram lá acima deram um goleco". Mas o mais grave parece ser a promessa feita, em seguida, por Valentim, em que deixa entender que o árbitro foi bem classificado e terá boa nota no final da época. Jacinto Paixão negou em tribunal qualquer tentativa de corrupção. Embora reconhecesse ter uma boa relação com Valentim Loureiro, garantiu que, inclusivamente, desceu de categoria nesse ano . Além disso, o árbitro assumiu ter estado com as prostitutas, desconhecendo quem pagou e negando qualquer favorecimento ao FC Porto. O JN tentou ouvir os outros envolvidos. Pinto da Costa e João Loureiro não quiseram prestar esclarecimentos, alegando estar o processo em segredo de justiça. Valentim Loureiro esteve sempre incontactável."

sexta-feira, setembro 16, 2005

Para mim tanto me faz...

Folgo em saber que o album dos D'ZRT já não está no primeiro posto dos mais vendidos nessa meca da cultura de seu nome FNAC.
A todos os portugueses que não compraram esse objecto o meu muito e muito obrigado.